SONHO DE NOIVOS Sonhavam casar. De fato, não posso deixar de mencionar a empatia que sentiam um pelo outro. E narro assim não porque outrora faltou amor, não, não é isso. É que de fato formavam um belo par. Um casal firme, cúmplice, concreto, uma espécie de Bonie e Claide do pós-modernismo. Conheceram-se e começaram a namorar ainda na escola. Jovens, bonitos, chamavam a atenção. O namoro durou 11 meses, depois, apressados pelo desejo veio o noivado. A paixão que a principio era física, ou para os especialistas no assunto (o que não é meu caso), simples atração, logo se transformou em algo maior, sublime, um tesão hipérbole. Daqueles que nos fazem gozar pelo simples olhar, por uma boa conversa, pelo intelecto sedutor do amado. Noivaram sem planos, talvez por isso a fase mais demorada: dois anos. Ao longo da relação foram se ajeitando. Um empréstimo aqui, um enxoval ali, alguns padrinhos extras. A coisa ia bem. Se num primeiro momento a relação evoluiu como, aparentemente, deveria ser, logo encontraram um no outro a possibilidade de satisfazerem um sonho em comum: o casamento. E não poderia ser qualquer casamento. Teria todo o luxo e beleza a que tinham direito. Já não se viam como namorados, noivos ou amantes, agora eram amigos, escala sublime de um relacionamento. Não transavam, raras vezes se beijavam ou andavam de mãos dadas. Tudo era diferente, agora tinham planos, um sonho. Passavam madrugadas calculando, imaginando os apetrechos da festa, alternando os nomes dos padrinhos, contando o número dos convidados. Ele, no auge do desejo, vendeu o carro; ela trancou a faculdade. Faltaria pouco dali por diante. Juntaram o suficiente para uma grande festa, com todas honras e polpas, o vestido longo, a cartola dele, um bolo enorme e a lua de mel. Ah, a lua de mel. Pensaram em tudo, agendaram férias nos serviços, adiantaram compromissos extras e tudo que se possa se imaginar. A quem diga (e eu acredito) que depois de agendarem a data, com o padre e no cartório, deram um longo beijo (de língua), digno de cinema e que no dia seguinte até flores ela ganhou. Por via de dúvidas, ele, sempre cauteloso, havia pedido suas férias para uma semana antes do casamento. Estava felicíssimo com a vida e o sonho, que agora tinha data e local para acontecer. Resolveu que dois dias antes do casório não mais a veria, até “a grande hora” (como se referia ao casamento), só para aumentar a expectativa e que na véspera pagaria uma grande “cervejada” para os amigos. Assim o fez. Pagou para os colegas, brincou, gargalhou, só não bebeu, mal parecia aquele homem preocupado e frio de meses atrás. Para um amigo mais próximo até confessou: “Sou o homem mais feliz do mundo”. Na volta, passando pela linha amarela, foi atingido por uma bala perdida, na cabeça. Morreu na hora. No enterro a noiva chorou com vestido, véu e grinalda. Marcelo Emerson wp


Leia este blog no seu celular